Indústria 4.0 no Brasil: cenário, gargalos e talentos

Veja como a digitalização das operações avança nas empresas nacionais e quais estratégias de gestão resolvem a escassez de talentos técnicos

Fábrica moderna automatizada representando o avanço da indústria 4.0 no Brasil com painéis digitais azuis e verdes

Resumo

– A adoção da indústria 4.0 no Brasil cresce em grandes operações, mas ainda esbarra na infraestrutura legada e em custos de conectividade.
– O maior entrave para a automação industrial no país é a escassez de profissionais que dominem ao mesmo tempo hardware de campo, nuvem e análise de dados.
– A saída para as empresas passa pela requalificação interna de técnicos operacionais e pelo uso de ferramentas inteligentes que simplificam o desenvolvimento.

Em cerca de duas décadas atuando na liderança e condução de projetos de TI, presenciei diversas ondas de modernização nas empresas. Quando começamos a falar de integração entre sensores e nuvem, a promessa era de uma revolução rápida.

Na prática do dia a dia, gerenciar cronogramas de tecnologia no nosso mercado revela um obstáculo bem mais duro do que a compra de equipamentos: a falta de braços qualificados para sustentar a operação.

Com a minha base técnica na rotina de projetos, percebo que o dinheiro para investir na digitalização muitas vezes existe no orçamento. O que paralisa os planejamentos é abrir uma vaga para especialista em integração industrial e passar meses sem receber um currículo alinhado com a realidade do chão de fábrica.

Discutir a evolução da automação no mercado nacional exige olhar menos para os catálogos de robótica e muito mais para a gestão do nosso capital humano.

Onde estamos na adoção da Indústria 4.0 hoje?

A transição para a Indústria 4.0 no nosso mercado opera em duas velocidades bem distintas. De um lado, multinacionais do agronegócio, montadoras e gigantes da mineração já utilizam redes privativas de internet e monitoramento em tempo real de ativos com padrão internacional de eficiência.

Do outro lado, uma imensa camada de médias e pequenas empresas de manufatura e logística ainda luta para completar a automação básica da terceira revolução industrial. Nesses ambientes, máquinas mecânicas antigas dividem espaço com controles manuais feitos em planilhas de texto.

A digitalização avança à medida que os sensores de Internet das Coisas (IoT) se tornam mais acessíveis. O desafio atual deixou de ser a importação do hardware. O ponto crítico é conectar máquinas legadas de diferentes épocas aos sistemas de gestão empresarial que rodam na nuvem sem gerar falhas de segurança cibernética.

Exemplo prático no setor têxtil

Uma fiação tradicional em Santa Catarina precisava reduzir o desperdício de matéria-prima nos teares mecanizados da década de 1990. Em vez de trocar todo o maquinário por milhões de reais, a equipe instalou sensores de vibração e temperatura ópticos de baixo custo nas engrenagens antigas.

Os dados passaram a alimentar um painel analítico na nuvem em tempo real, permitindo identificar os teares que desregulavam e rasgavam os fios com duas horas de antecedência em relação ao método manual visual anterior.

O grande gargalo: a escassez de profissionais qualificados em TI

Você pode comprar licenças de softwares avançados e importar sensores de precisão, mas os dados não se analisam sozinhos. O principal freio para a aceleração da nossa produtividade digital é a escassez crônica de talentos técnicos de TI e automação.

Esse descompasso de mercado ocorre pela combinação de três fatores estruturais que afetam diretamente os gestores de projetos nas empresas:

  1. Formação acadêmica desatualizada: As universidades tradicionais demoram para atualizar currículos. Muitos recém-formados conhecem teorias da computação, mas nunca configuraram um protocolo de comunicação industrial ou uma rotina de ingestão de telemetria em tempo real.
  2. A competição global pelo trabalho remoto: A pandemia consolidou a contratação remota internacional. Profissionais brasileiros sêniores de infraestrutura de dados e arquitetura de nuvem são disputados por empresas americanas e europeias ganhando em dólar ou euro, esvaziando o mercado interno.
  3. A complexidade do perfil multidisciplinar: O profissional exigido pela manufatura avançada não atua isolado em uma sala com ar-condicionado. Ele precisa entender as regras de negócios da empresa, o funcionamento físico da máquina e os fluxos de segurança de redes na nuvem simultaneamente.
Infográfico mostrando os três pilares do gargalo de talentos na indústria 4.0 no Brasil
Infográfico mostrando os três pilares do gargalo de talentos na indústria 4.0 no Brasil

Estratégias de Gestão para Superar a Falta de Talentos

Para não deixar projetos de digitalização paralisados na gaveta por falta de contratação externa, os gestores precisam reformular suas estratégias de equipe.

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